Adolescer - Verbo Transitório
Um hábito que, lamentavelmente, cada vez menos a gente parece cultivar é o da leitura. Justificativas para isso não faltam. Desde as tribulações da vida até as extenuantes jornadas de trabalho, tudo parece conjurar em favor de nossa pouca disposição para abrir um livro. A propósito, uma das mais impressionantes recordações que trago da infância é a imagem da pilha de livros espíritas que meu pai mantinha à cabeceira de sua cama. Impressionante por três razões, pelo menos. Primeiro, porque possuía um mínimo de escolaridade; nem chegou a freqüentar a escola convencional. (Mesmo assim comunicava-se com facilidade. Seus irmãos gostavam de se referir à prece que ele fez quando a irmã caçula desencarnou. Consta que os presentes ao velório, dentre eles professores, advogados e médicos, teriam ficado visivelmente surpresos com sua desenvoltura.) Em segundo lugar, porque os livros espíritas que lia não eram triviais. Além de O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, lia A Gênese, Obras Póstumas, O Céu e o Inferno e o Velho Testamento. (Guardo comigo alguns desses livros, a exemplo de um surrado volume da Bíblia. Na primeira página do livro aparece um carimbo onde se leem "Centro Espírita Vianna de Carvalho" e "Asilo Jeronymo Ribeiro e Cairbar Schutel", personagens que já homenageavam naqueles idos de 30 a 40!) Finalmente, porque nessa época, morando numa pequena propriedade rural, meu pai trabalhava duro, de sol a sol, na lavoura. Ainda assim encontrava disposição para a leitura diária...à luz de lamparinas!
Bem, passemos ao tema que me move a escrever esse despretensioso texto. Começo com uma confidência. Raras vezes li um livro de um só fôlego - exceção feita, naturalmente, aos tempos dos bancos escolares, quando as tarefas se acumulavam e a gente lia calhamaços inteiros num só final de semana. Coincidentemente, do início do ano para cá tive a ocasião de ler dois livros nestas condições, ou seja, de uma só empreitada. Um deles o livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. O outro o livrinho Adolescer - Verbo Transitório, de Edson Sardano. Bem, em que pese o lugar-comum, livrinho nas dimensões, porque gigante no conteúdo! Filho do conhecido casal de militantes espíritas Terezinha e Miguel de Jesus Sardano, Edson possui uma larga vivência espírita bem como uma rica e incomum experiência profissional. É Capitão da Polícia Militar, bacharel em Direito e professor universitário. Daí a lucidez, a objetividade e a concisão impressionante com que aborda temas como homossexualidade, união gay, iniciação sexual, aborto, drogas, violência, pena de morte, entre outros, com o adendo de que, sem ser prolixo nem piegas, a abordagem é toda feita à luz dos conceitos e valores espíritas. O título do livro, por sua vez, não pode ser ignorado. Além de revelar o caráter espirituoso e jovial do autor, o título dá o tom da abordagem: é na transitoriedade das aflições inerentes à turbulenta fase que sucede a infância que o ser, verdadeiramente, se prepara para a conquista dos tesouros íntimos
da plenificação. Resta dizer que Joanna de Ângelis, com a autoridade e sabedoria da veneranda missionária e educadora que foi na Terra, prefacia o livro com uma belíssima página, psicografada pelo médium e orador Divaldo P. Franco.
Eurípides Alvez da Silva, frequentador de C.E. Rodrigo Lobato de S.J. Rio Preto, é mestre e doutor em Matemática pela USP e ex-diretor do campus da UNESP de S.J. Rio Preto.
voltar |